Exatas não é só para
homens: mais mulheres que se destacaram na física e na matemática
O
acesso à Universidade foi por muitos séculos negado às mulheres. E mesmo após a
permissão para estudar em tais instituições, as mulheres sofreram muita
discriminação, falta de apoio e de incentivo financeiro para realizarem suas
pesquisas, apenas por causa do seu gênero. Um historiador dessa época escreveu
que "entregar nossa universidades para a invasão das mulheres. . . é uma
vergonhosa demonstração de fraqueza moral." Na Universidade de Erlangen, o
Senado Acadêmico, em 1898, declarou que a admissão de mulheres estudantes é
"derrubar toda a ordem acadêmica."
A
situação das mulheres que optam pela área de exatas é mais complicada, visto
que esse campo é até hoje visto como uma área masculina. A ciência exatas exige
que a pessoa tenha um bom raciocínio lógico e abstrato, e a nossa sociedade
ainda insiste em atribuir tais características exclusivamente ao gênero
masculino.
Porém,
tivemos mulheres que deixaram contribuições fundamentais para a física,
matemática e a astronomia. Muitas delas, nós nunca ouvimos falar. Da fissão
nuclear ao hidrogênio nas estrelas, hoje iremos falar sobre essas mulheres.
1- Cecilia Payne-Gaposchkin
Cecília
Payne-Gaposchkin foi uma astrônoma extraordinária. Nasceu em maio de 1900, em
Wendover, Inglaterra, em uma família de intelectuais. Em 1919, um ano após o
término da Primeira Guerra, ganhou uma bolsa para estudar botânica no Newnham
College (Cambridge). porém, seu grande interesse por física e astronomia fez
com que ela mudasse de área. Essa mudança foi decisiva para a vida acadêmica de
Cecília.
Iniciou
seus estudos de doutotado em Harvard justamente no ano em que o astrônomo
Harlow Shapley inaugurou o curso de astronomia nesta Universidade. Cecília foi
a primeira aluna de astronomia de Harvard. Com apenas 25 anos de idade,
Payne-Gaposchkin concluiu a sua tese de doutorado intitulada “Atmosfera e
estrelas, uma contribuição para o estudo da observação da altas temperaturas
nas camadas revertidas de estrelas”. Sua tese foi descrita por Otto Struve,
diretor do observatório de Yerkes como “a tese de doutorado mais brilhante já
escrita em astronomia”. Nessa tese, Gaposchin descreve que os componentes mais
abundantes das estrelas são o hidrogênio e o hélio.
Apesar
de brilhante, Cecília foi obrigada a escrever em sua tese que os seus
resultados poderiam estar errados. Quatro anos depois, o professor Russel
(Princeton) publicou um artigo no qual descreveu que o sol é composto
majoritariamente por hidrogênio.
Payne-Gaposchkin
foi uma astrônoma extraordinária, porém seu grandioso trabalho foi
desvalorizado e até mesmo esquecido. Foi contratada para trabalhar apenas como
assistente, sendo que somente em 1956 foi nomeada como professora, tornando-se
a primeira mulher a lecionar em Harvard.
—Cecilia Payne-Gaposchkin
2- Lise Meitner
Lise
Meitner nasceu Viena em 1878. Durante a sua infância, cresceu em uma atmosfera
intelectual estimulada pelos seus pais. Porém, quando terminou seus estudos
primários com 14 anos não pode seguir adiante logo em seguida, já que naquela
época em Viena, mulheres eram proibídas de frequentar a Universidade e as
escolas secundárias. A partir de então, ela deveria se dedicar a uma atividade
que fosse permitida as mulheres de sua época. Passou então a dar aulas de
francês, algo que nunca foi do interesse profissional dela. Em um dos registros
deixados por ela, Lise fala que apesar do seu interesse por física e
matemática, ela não começou a estudar essas matérias cedo e que “olhando pra
trás... pros tempos da minha juventude, percebe-se com espanto, que existiam
alguns problemas na vida de jovens garotas que hoje em dia são inimagináveis”. Dentre
esses problemas, Lise cita como sendo o principal, a falta de acesso aos
estudos superiores.
Somente
em 1899, com o apoio e incentivo de seus pais, Meitner começou a ter aulas das
matérias ensinadas na escola secundária. Assim, dois anos mais tarde, pode
frequentar as aulas na Universidade de Viena, quando já tinha 23 anos. Teve
aulas com o físico Ludwig Boltzmann, considerado o fundador
da mecânica estática. Segundo Lise, Boltzmann a deu a ela “a visão da física
como uma batalha pela verdade, uma visão que nunca perdi”. Obteve seu título de
doutora em 1906, ao defender a tese intitulada “Condução de Calor em Corpos Heterogêneos”,
na qual mostrou que a fórmula de Maxwell usada para a condução de eletrecidade em
um sólido homogêneo também se aplica a condução do calor.
Em
1907, Meitner se mudou para Berlin para estudar na Universidade Max Planck. Lá
conheceu o químico Otto Hahan, com quem veio a trabalhar em colaboração por 30
anos. Inciaram seus trabalhos examinado as reações alfa, beta, e gama. Porém,no
início dessa colaboração, não eram permitidos mulheres no Instituto de Química,
o que fez com que a cientista tivesse que trabalhar em um porão acessível ao
Instituto de Química por uma entrada separada. Essa restrição acabou dois anos
mais tarde, o que não significa que as coisas ficaram muito mais fáceis para
Lise.
Apesar de sua parceria com Otto ter sido
muito produtiva, enquanto ele tornava-se um membro destacado do Departamento de
Química, ela ainda continuava a sombra. Somente em 1912 começa a receber uma
pequena bolsa para financiar o seu trabalho. Essa bolsa foi solicitada por Max
Planck, com o qual passou a trabalhar como assistente.
Em 1917, Maitner e Hahn começaram a trabalhar
no Instituto Kaiser Wilhelm. Enquanto ele foi contratado para a direção de um
departamento para investigação em radioatividade, Lise foi contratada apenas
como convidada. Aqui já podemos observar claramente que mesmo Lise e Hahn encontrando-se no mesmo nível profissional (ambos eram doutores e já possuíam importantes artigos na área) o tratamento dispensado a eles era muito
diferente. Somente anos mais tarde que ela passou para a posição de “Scientific
associate”, uma posição mais alta que a anterior e melhor remunerada.
Em 1922, Lise passou a dar aulas no
Departamento de Física da Universidade de Berlim. Antes de começar a dar aulas,
teve que fazer uma apresentação Universitária inaugural público, como era a
tradição desta instituição. Porém, por ser mulher, o fato virou notícia, tendo
o jornal local publicado o tema: “o significado da radioatividade em física
cosmética”. É lógico que o trabalho de Lise não tinha nada de “física
cosmética” (o que quer que isso signifique).
Em decorrência da qualidade do seu trabalho
recebeu a medalha de prata no Prêmio Leibniz Prize da Academia de Ciências de
Berlim e o Lieben da Academia de Ciências de Viena. Seu prestígio serviu de
inspiração para que mais meninas na época, se interessassem a seguir a carreira
de física. Trabalhando juntos, Meitner e Hahn descobriram em 1918, o elemento
protoactínio.Mas
o trabalho mais importante de Lise Meitner foi a descoberta da fissão nuclear.
A
física nuclear era um ramo que estava em expansão. No ano de 1934, o físico
Enrico Fermi havia produzido isótopos radioativos bombardeando núcleos com
nêutrons. Porém, como o resultado eram muitas espécies de núcleos, levantou-se
a hipótese que algum desses isótopos seriam elementos transurânicos (número atômico
maior que 92). Ao saber desses resultados, Meitner convenceu Hahn e seu
assistente Fritz Strassmann a trabalharem juntos em um novo projeto cujo
objetivo visava verificar se isso era possível.
Porém,
a crise econômica e os rumos da Alemanha também serviriam como um obstáculo
para o trabalho de Lise. Por ser de origem judia, apesar de ter se tornado protestante
muitos anos antes, Lise havia sido proibida de dar aula em Berlim em 1933. Em 1938, quando a Áustria foi anexada
a Alemanha, Lise perdeu a proteção da nacionalidade e se viu obrigada a se refugiar
na Suécia, onde continuou seu trabalho no Instituto Manne Siegbahn em Estocolmo.
No Instituto Nanne Siegbahn, o auxílio
financeiro que obtinha para realizar suas pesquisas eram muito baixos, e para
piorar a situação, Lise trabalhava sem colaboração. Sua biógrafa conta que “sem
ser convidada a se juntar ao grupo de Siegbahn, nem receber recursos para fazer
sua própria pesquisa, tinham-lhe cedido apenas um espaço para montar um
laboratório, mas ela não tinha colaboradores, equipamentos ou suporte técnico,
nem mesmo seu próprio molho de chaves..”. Essa dificuldade foram em parte devido ao preconceito de Siegbahn contra
mulheres cientistas.
Enquanto
isso, Hahn, com a colaboração do químico Fritz Strassmann, continuou os estudos
com os transurânicos. Ao realizarem mais alguns novos experimentos (algum deles
realizados por indicação de Lise Meitner) com um produto do urânio que eles
pensavam que fosse um isótopo do elemento rádio (Z = 88), verificaram que na
verdade, se tratava de bário (Z = 56). Ao ler o trabalho escrito por Hahn,
Meitner e Otto Frisch (sobrinho de Lise) interpretaram esse fenômeno, dando o
nome de fissão nuclear. O trabalho foi publicado na revista Nature, onde estão
transcritos alguns trechos:
..."A
primeira vista, este resultado [de Hahn e Strassmann] parece difícil de
entender. A formação de elementos bem abaixo do urânio fora considerada
anteriormente, mas sempre foi rejeitada por razões físicas, na medida em que a
evidência química não era totalmente clara. A [suposição] emissão, num curto
período de tempo, de um grande número de partículas carregadas pode ser
descartada pela pequena penetrabilidade da `barreira coulombiana', como
sugerido pela teoria do decaimento alfa, de Gamow.
...Por
conta de sua densidade saturada e forte energia de troca, espera-se que partículas
em um núcleo pesado se movam de forma coletiva com alguma semelhança com o
movimento de uma gota líquida. Se o movimento se tornar suficientemente
violento, pela adição de energia, tal gota poderia se dividir em duas gotas
menores.
...Parece,
portanto, possível que o núcleo de urânio tenha pequena estabilidade de forma,
e que possa, após capturar um nêutron, dividir-se em dois núcleos de tamanhos aproximadamente
iguais (...) Esses dois núcleos se repelião e ganharão uma energia de cerca de 200 MeV, como
calculado pelo raio e carga nucleares (...) Todo o processo de cisão pode ser
descrito de forma essencialmente clássica, sem ter que considerar o `efeito túnel'
da mecânica quântica, que seria extremamente pequeno, por conta das grandes
massas envolvidas."
Os
núcleos formados possuiam uma massa ligeiramente menor, mas a diferença das
massas do composto original e do produto formado, quando aplicado na fórmula de
Einsten, E= mc2, produziam uma energia muito grande. Uma grande
descoberta científica, que infelizmente porém, foi usada na Segunda Guerra
Mundial para a fabricação de bombas atômicas. Lise sabia da importância da
descoberta da fissão nuclear, porém jamais imaginaria a que rumo esse
conhecimento levaria.
Otto
Hahn, integrado numa instituição cada vez mais nazista, é aplaudido pela
descoberta da cisão nuclear. Mesmo tento sido Lise que interpretou tal
fenômeno, Hahn recebeu sozinho o Prêmio Nobel de 1944 “pela sua descoberta da
fissão de núcleos pesados. Enquanto isso, a situação de Lise Meitner pouco ou
nada se alterou; Manne Siegbahn quase a ignora. Porém nem todos pensavam assim.
Foram várias as universidades que lhe ofereceram doutoramentos honoríficos e
academias de grande prestígio que a incluíram como seu membro.
Lise Mewitner
retorna a Alemanha em 1949 e recebe a medalha Max Planck pela Sociedade Alemã
de Física. Faleceu em 27 de outubro de 1968. Somente anos mais tarde, o papel
de Lise Meitner na descoberta e interpretação da fissão nuclear foi
reconhecido. Em 1982, o elemento de número atômico 109, obtido por Peter
Armbruster e Gottfried Münzenberg, foi batizado de Meitnério, símbolo
Mt, em sua honra.
Emmy
Noether, filha do matemático Max Noether, foi uma das figuras mais importantes
da matemática no século passado. Nasceu na cidade de Erlangen, na Alemanha, há
mais de cem anos atrás. No início do século XX, ainda não era permitida a
presença de mulheres na Universidade de Erlangen. Apesar disso, Emmy conseguiu
a licença para assistir as aulas nesta Universidade entre 1900 e 1902, o que
ajudou com que ela passasse na Universidade de Göttingen, em 1903. No final do
ano de 1904, ela retornou para Erlangen, onde obteve o seu doutoramento em
matemática através da defesa de uma tese sobre a Teoria dos Invariantes.
Noether
começou a trabalhar de maneira informal no Instituto de Matemática da
Universidade de Erlangen, onde tinha como objeto de estudo a álgebra. Depois de
um tempo, começou a dar aulas em Erlangen, porém, por seu mulher não podia
receber por isso. Apesar de não
possuir auxílio financeiro, em 1915 ela publica os resultados de sua pesquisa. Com
os resultados dessa publicação, ela revolucionou as teorias sobre anéis e corpos. Em física, o teorema de Noether explica a conexão fundamental entre a simetria na física e as leis de conservação.
Seu
trabalho começou a ficar reconhecido, até que em 1915 ela se muda novamente
para Göttingen para auxiliar os matemáticos David Hilbert and Felix Klein em
problemas relacionados sobre a Teoria da Relatividade de Einsten. O próprio
Einstein elogiou seu pensamento matemático penetrante em sua carta a Hilbert em
1918, Nessa carta, o famoso físico escreve: “Ontem recebi da senhorita Noether um
artigo muito interessante sobre formas invariantes. . . ela certamente sabe o
que está fazendo.” A partir da década de 20 do século passado, Noether começa a
segunda etapa do seu trabalho, os quais foram fundamentais na área de álgebra
abstrata.
Emmy
Noether foi uma matemática abstrata, original e profunda e suas contribuições
foram de extrema importância para a álgebra. A abordagem desenvolvida por
Noether e seus alunos ficou conhecida como a Escola de Noether. Infelizmente,
Emmy morreu cedo, no ano de 1935, com apenas 53 anos de idade, devido
complicações de uma cirúrgia para a retirada de um tumor.
4- Maria Goeppert Mayer
Maria
Goeppert foi uma física estadunidense nascida em 26 de
junho de 1906 na Alemanha. Era filha única de Friederich Goeppert, pediatra e
professor na Universidade de Göttingen. Desde criança, já assumia-se que Maria
iria frequentar a Universidade quando mais velha, algo raro e incomum de se
esperar das mulheres de sua época. Seu pai não queria que ela se tornasse uma
dona de casa.
Aos 18
anos começou a estudar matemática na Universidade de Göttingen. Foi nesse
período que Goeppert teve contato com uma área nova na física que estava em
ascensão naquele período: a mecânica quântica. Em 1930 obteve o seu título de
doutorado.
Foi também no ano de 1930 que Maria
casou com Joseph Mayer, também estudante na época, e então passou a assinar
como Goeppert-Mayer. Eles se mudam para os Estados Unidos e Joseph começa a
estudar na Universidade de Baltimore. Porém Maria não consegue um emprego nessa
instituição com a desculpa que duas pessoas da mesma família trabalhando na
mesma Universidade seria nepotismo. Então,
Maria Goeppert-Mayer começou a trabalhar como assistente na Universidade de
Baltimore. Somente em 1960 ela finalmente
conseguiu uma posição no departamento de física da Universidade da Califórnia
em São Diego, onde lecionava.
Goeppert-Mayer criou a primeira teoria
verdadeiramente quântica para a estrutura nuclear. Foi ela quem introduziu o conceito de camadas
nucleares, o qual, além de ter sido fundamental para o estudo do átomo, permitiu
também entender a rotação intrínseca e propriedades magnéticas nos núcleos,
conhecimento esse que é a base da ressonância magnética usada amplamente na
medicina.
Maria Goeppert-Mayer recebeu o prêmio Nobel de
física em 1963 junto com seu colaborador J. Hans Jensen, tornando-se a segunda
mulher a receber tal honraria. A primeira foi Marie Curie.
REFERÊNCIAS
1-
Banerjee,
b. Maria Goeppert Mayer. Ressonance,
2007.
3- EMMY
NOETHER. Disponível em: http://www.robertnowlan.com/pdfs/Noether,%20Emmy%20Amalie.pdf
4-
Gonçalves-Maia, R. Lise Meitner:
A Intérprete da Cisão Nuclear. Rev. Virtual Quim., v.4, n.2, p. 173-192, 2012.
5- Gingerich,
o. Cecília Payne-Gaposchkin: astronomer and .astrophysycist,
1900-1980. Disponível em: http://www.harvardsquarelibrary.org/unitarians/payne2.html
6-
Horn, d. ESSAYS ON SCIENCE AND SOCIETY The Shoulders of Giants. Science, v. 280,
n. 5368, p. 1354-1355, 1998.
7-
Moeckly, s.r. The Life and
Work of Maria Goeppert-Mayer. Mulheres na Física: Lise Meitner.Carta ao editor.
Rev.
Bras. de Ensino de Física, v.
27, n. 4, p. 491-493, 2005.
8- Weintraub, b. Lise Meitner (1878-1968): Protactinium,
Fission, and Meitnerium. Disponível em: http://www.chemistry.org.il/booklet/21/pdf/bob_weintraub.pdf
















