terça-feira, 17 de setembro de 2013

Laicidade em ação




A laicidade consiste em um Estado não seguir nenhuma doutrina oficial, no sentido de que seus cidadãos não precisam perfilhar nenhuma doutrina a fim de terem o status político-jurídico de cidadãos e de não existir o beneficiamento de nenhuma igreja ou doutrina por parte do Estado. Em termos básicos, a laicidade no Brasil tem duas grandes fases: antes e depois da Proclamação da República (15 de novembro de 1889) ou do Decreto n. 119-A (7 de janeiro de 1890).
Foi justamente um panorama geral da história e dos aspectos jurídicos atuais da laicidade brasileira, o tema discutido na mesa-redonda organizada pela Marcha pelo Estado Laico e Liberdade Religiosa, realizada no dia 12 de setembro na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Participaram da mesa o cientista político da UFPR, Gustavo Biscaia de Lacerda e a advogada da Comissão da Diversidade Sexual da OAB, Licínia Stevanato.
No primeiro momento da mesa redonda, Gustavo fez apontamentos sobre a história da laicidade no Brasil e em um segundo momento, Licínia ressaltou os aspectos jurídicos atuais da laicidade brasileira.
Segue um resumo do que foi abordado na palestra.




Laicidade em ação no Brasil: histórico e desafios jurídicos


Antes da Proclamação da República, a religião oficial adota pelo Estado brasileiro era o catolicismo, sendo que a Igreja foi um agente ativo na colonização do nosso país. No Brasil Império, apesar da religião oficial continuar sendo o catolicismo, foi garantida à população a liberdade religiosa, porém, desde que essa fosse privada. Assim, os cidadãos brasileiros passaram a adquirir o direito a escolher a sua religião, contato que não a praticassem em público.
A separação entre o Estado e a Igreja no Brasil se deu no ano de 1891, logo após a proclamação da república. A questão da laicidade era uma das maiores preocupações do movimento republicano. Porém, a Igreja Católica sempre tentou continuar a exercer o seu poder sobre o Estado. Tanto que em 1931, quando na inauguração do Cristo Redentor, o Cardeal Sebastião Leme disse ao Presidente da época, Getúlio Vargas: “ou o Estado reconhece o deus do povo ou o povo não reconhecerá o Estado”. Vargas cede a pressão da ICAR.  Assim, foi incluído no Prefácio Constituição de 1934 a palavra “deus”. Ainda, foi previsto o ensino religioso facultativo no horário escolar e prevê-se a colaboração Igreja-Estado no “interesse público”. A partir de então, desenvolve-se um forte processo de recatolização das elites, afirmando-se no mito da “nação cristã”.
Avançando mais um pouco na história, veremos que a ICAR apoiou, inicialmente, o golpe militar de 1964, com base no anticomunismo. Em seguida, se distanciou do regime e passou a condenar as violências e torturas, tornando-se forte crítico do regime. Como alternativa de legitimação, os militares procuraram o apoio dos protestantes, que a partir da década de 1970 passaram a receber benefícios do estado e a serem prestigiados por ele.
Depois da redemocratização brasileira, e principalmente depois da Constituição de 1988, a situação da laicidade no Brasil se tornou, por assim dizer, paradoxal. Se por um lado, observa-se um fortalecimento da sociedade civil em um sentido que é secular e laico, por outro lado, há uma confessionalização da política. A constituição de 1988 reafirmou a liberdade religiosa e a laicidade do Estado, ressalvada a colaboração em nome do “interesse público” e das aulas de religião no horário regular.
A partir desta época, aumentou o número de candidatos evangélicos. Pode ser observado também, uma clericalização das eleições: “crente vota em crente”, “vote para Jesus”, entre outros bordões. Da década de 80 pra cá, o que se observa é um fortalecimento da plataforma política dos evangélicos, que é particularmente agressiva e prioritariamente religiosa.
Em 2008, foi aprovada a concordata entre Brasil e Vaticano, que além de reafirmar velhos privilégios da ICAR, criou novos, garantindo o ensino religioso da religião católica nas escolas públicas, o pagamento do laudemio e a existência de capelanias.
Nas eleições de 2010, a Concordata não foi discutida, mas temas “religiosos” invadiram o debate entre Dilma Roussef (PT) e José Serra (PSDB) no segundo turno, como aborto, “kit-gay” e união civil entre pessoas do mesmo sexo.
Portanto, após 120 anos de Proclamação da República, a participação de religiosos na política no Brasil tem se intensificado na última década. Um grupo cristão, formado predominantemente por conservadores católicos, bem como por pentecostais e neo pentecostais, ávidos pela expansão do poder político até então conquistado, vem apresentando constantes violações à laicidade do Estado, na tentativa de impor à toda a população seus usos e costumes de fundo religioso.
A tentativa destes grupos de impor seus preceitos religiosos tem se tornado um forte entrave na luta de grupos minoritários  como mulheres e pessoas LGBT’s. É importante ressaltar que, mesmo o Brasil ainda sendo um país onde a maioria da população se declara cristã, não se pode confundir democracia com uma ditadura da maioria, pois na democracia as minorias são chamadas à igualdade e à cidadania. Por isso a religião no Estado Laico deve se circunscrever à esfera privada do cidadão e das organizações. Porque excludentes, suas verdades absolutas são incompatíveis com a política e com a esfera pública, que necessariamente devem trabalhar no movimento oposto, de inclusão social. No entanto, tais grupos vêm embutindo valores religiosos no processo legislativo e desconsiderando a necessidade de neutralidade axiológica para legislar sobre temas de alcançam a vida de todos os cidadãos brasileiros.
Apesar de tais grupos religiosos justificarem uma suposta necessidade de que seja instaurada no país uma teocracia para restauração moral da sociedade, num projeto político denominado o Brasil para Cristo, é comum verificar em seus discursos que a laicidade deixou de ser frontalmente combatida, sob uma falsa perspectiva de que tais personagens seriam “democráticos”, e passa-se a realizar a perversão do conceito original de laicidade.
Vejamos, por exemplo, o conteúdo da justificativa do projeto de emenda constitucional 99/2011, que prevê a inclusão de entidades religiosas de âmbito nacional no rol de entidades autorizadas a propositura de ação direta de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade de leis ou atos normativos, perante o STF, rol previsto pelo artigo 103 da Constituição Federal.
A justificativa da PEC apresentada pela Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, já aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara, traça histórico pormenorizado das conquistas da república, mencionando expressamente que “A expedição do Decreto 119-A, de 1890, preambularmente cria os alicerces para o desenvolvimento dessa liberdade religiosa que iria permear de forma progressiva todas as Constituições da República, no desenvolvimento do Estado confessional para o almejado Estado laico, ainda por conquistar.” E mais adiante justifica que a redemocratização do Brasil em 1988, ampliando o referido sistema de liberdades públicas, solidificou princípios inerentes a liberdade de culto e, sobretudo, enfatizou a dicotomia entre o Estado e as Igrejas (ou Religiões) dimensionando um novo estágio de confessionalidade do Estado brasileiro.
Ressalte-se que o estado laico presume a paridade entre as entidades religiosas, o inviabiliza qualquer ato de incentivo a uma instituição em detrimento das demais, não importando se a mesma julga ter contribuído ou não para a formação da sociedade.

domingo, 1 de setembro de 2013

Laicidade em ação no Brasil

No dia 12 de setembro, A Marcha pelo Estado laico irá organizar a mesa redonda  “Laicidade e ação no Brasil: história e desafios jurídicos” . 
Confira o texto publicado no site da UFPR sobre o evento: 


Desafios jurídicos da laicidade” serão abordados em mesa-redonda na UFPR


“Laicidade e ação no Brasil: história e desafios jurídicos” é tema da mesa-redonda que será realizada na UFPR, no dia 12 de setembro, às 19 horas, no Anfiteatro 100 do Edifício D. Pedro I, Reitoria. O evento terá como debatedores o cientista político da UFPR, Gustavo Biscaia de Lacerda, e a advogada Licínia Stevanato, da Comissão de Diversidade Sexual da OAB/Paraná.
Segundo Gustavo, durante as discussões serão abordados aspectos jurídicos da laicidade e alguns dos desafios contemporâneos que ela enfrenta, especialmente a respeito da saúde reprodutiva. Esta é a segunda mesa-redonda que a UFPR sedia em 2013. Na anterior, foram discutidas questões mais gerais, como os princípios teóricos da laicidade e problemas ligados à sua aplicação em políticas públicas. O evento, promovido através da Marcha pela Laicidade do Estado, é aberto a alunos, professores e técnicos administrativos, bem como, à comunidade em geral.
Relações problemáticas
Segundo Gustavo, Estado laico não é Estado ateu. Laicidade consiste em o Estado não ter nenhuma doutrina oficial, ou seja, não impor aos cidadãos crenças, nem pressionar a sociedade. A laicidade é, portanto, uma garantia da liberdade de pensamento e de expressão. No Brasil, explica, desde sempre as relações entre Igreja e Estado são problemáticas, seja porque a Igreja impunha-se com o poder do Estado, seja porque o Estado costuma intrometer-se nos assuntos das religiões e/ou beneficiar-se das religiões.
Nos últimos anos, de acordo com o cientista, essa relação tornou-se mais problemática devido a, pelo menos, três grandes acontecimentos notáveis: (1) a Concordata, isto é, o acordo diplomático entre o Brasil e a Igreja Católica, ambiguamente com o Vaticano; (2) a afirmação de perspectivas e temas religiosos na campanha presidencial de 2010 (perspectivas e temas que se têm repetido desde então); (3) a eleição do pastor-deputado Marcos Feliciano para Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
Celsina Favorito

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Laicidade e educação


"Todos os cidadãos ficam, ou devem ficar, pelo menos 5 horas diárias durante 200 dias por ano durante 13 anos na escola. Em função desta permanência constante e longa dos alunos no ambiente educacional , como fica a questão da laicidade? ( Estado não impor aos cidadãos crenças, doutrinas, nem pressionar a sociedade)."



Para lembrar da importância da laicidade no ensino público, a Marcha pelo Estado Laico e Liberdade Religiosa esteve presente no 30 de Agosto: 25 anos. Dia de Paralisação Estadual. 




O 30/08 é simbólico para os professores, pois nesta data, há 25 anos atrás, um protesto pacífico dos professores da rede pública foi reprimido pela cavalaria da Polícia Militar, no governo de Álvaro Dias. Desde então todos os anos a data é lembrada como Dia de luto e luta pela educação paranaense.
Neste ano, cerca de 10.000 educadores foram as ruas em memória a essa data e para revindicar  melhorias na educação pública.







Mesa redonda "Laicidade em ação no Brasil: história e desafios jurídicos"





Com o objetivo de discutir alguns aspectos acerca da laicidade no Brasil, a Marcha pelo Estado Laico de Curitiba está organizando para o dia 12 de setembro, uma mesa redonda intitulada "Laicidade em ação no Brasil: história e desafios jurídicos". A mesa redonda foi organizada pela Marcha pelo Estado Laico de Curitiba e tem o apoio do Setor de Ciências Humanas da UFPR e da Aliança Estudantil Secular de Curitiba. 

Informações sobre a mesa redonda: 

Data: 12.9
Horário: 19h 
Local: anf. 100 (ed. D. Pedro I). - Reitoria UFPR
Participantes: Gustavo Biscaia de Lacerda (cientista político da UFPR e pós-doutorando em Teoria Política (UFSC)) e Licínia Stevanato (advogada da Comissão da Diversidade Sexual da OAB). 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Campanha: Onde está o Amarildo?/ Onde está o Juan Almonte?

Onde está o Amarildo? Onde está Juan Almonte?






Onde está o Amarildo?



O ajudante de pedreiro Amarildo Souza Lima, de 42 anos, desapareceu após ser levado para averiguação na sede da UPP da Rocinha, no dia 14 de julho. Ele foi levado por agentes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) à sede da UPP na Rocinha, Rio de Janeiro. Câmeras de vigilância instaladas próximas à entrada da Unidade registraram a entrada de Amarildo, mas a polícia alega que ele saiu por outra porta, cuja câmera não estava funcionando. Os equipamentos de localização por satélite dos carros da polícia também não funcionaram no dia em que Amarildo desapareceu. A polícia diz que está investigando o que aconteceu depois que Amarildo foi liberado, mas até agora ele não foi localizado. A esposa de Amarildo e sua família temem represálias de policiais.


Onde está Juan Almonte? 




No próximo mês de setembro, completam-se 4 anos do desaparecimento do ativista dominicano Juan Almonte Herrera em Santo Domingo, na República Dominicana. Juan era contador e pertencia à Comissão Dominicana dos Direitos Humanos. Ao que parece, seu desaparecimento aconteceu pelas mãos de agentes das forças policiais dominicanas, mas as autoridades daquele país nunca investigaram devidamente o caso, e as autoridades policiais seguem negando que o tenham detido.

Após o seu desaparecimento, a família e os advogados de Juan tem sido vítimas de repetidas ameaças e assédios. Foram seguidos por automóveis e estão sendo vigiados na rua da casa onde moram. A irmã de Juan recebeu telefonemas anônimos advertindo para não dar mais publicidade ao desaparecimento de seu irmão. As autoridades não ofereceram proteção à família.

Entre em ação

Estaremos neste domingo, dia 01/09, no Parque Barigui recrutando voluntários para tirar fotos segurando placas com os seguintes dizeres: "Onde está o Amarildo?" e ¿Dónde está Juan Almonte?. As fotos serão enviadas para:
http://where-is-amarildo.tumblr.com/
http://where-is-juan-almonte.tumblr.com/
e irão fazer parte da campanha da Anistia Internacional.

No caso do Juan Almonte, a Anistia está trabalhando para reunir fotos para uma exposição fotográfica, a ser montada para a manifestação do dia 28 de setembro, na semana em que completa 4 anos de seu desaparecimento. As fotos serão enviadas à família, à imprensa dominicana e às autoridades, e será criada uma exposição pública de fotos mostrando a sua solidariedade, junto com a de tantas outras pessoas, durante a manifestação.
Para o caso do Amarildo, também enviaremos cartas ao governador Sérgio Cabral solicitando a investigação completa do caso.




terça-feira, 27 de agosto de 2013

Sobre Milagres

O texto a seguir é uma tradução do artigo On Miracles – Again, publicado na Revista Skeptical Inquirer (vol. 35, n.5, setembro/outubro 2011). 


Milagres – novamente 


*Massimo Pigliucci

Indiscutivelmente, um dos mantras mais repetidos na comunidade cética é “Extraordinárias reivindicações requerem extraordinárias evidências”, uma subordinação moderna da ideia de David Hume que um homem sábio torna sua crença proporcional à evidência”. Hume escreveu sobre o ajuste da fé de acordo com as evidências disponíveis, em seu famoso ensaio Dos milagres publicado em 1748 como parte do livro Ensaio sobre o Entendimento Humano. Eu já havia discutido esse assunto em 2005 (Skeptical Inquirer Março/Abril, volume 14-15), mas como a máxima de Hume é um componente crucial do ceticismo moderno, e também pelo fato da Europa estar comemorando o aniversário de 300 anos deste famoso filósofo**, talvez seja necessário dar mais olhada no que esse conceito implica e porque ele ainda merece atenção nos dias atuais.
David Hume
A análise de Hume baseou-se na sua definição de milagre, uma definição que hoje em dia se aplica a diferentes áreas do ceticismo, e pode ser facilmente estendida para ocorrências que embora não sejam milagrosas, não deixam de ser extraordinárias o suficiente para cair na análise de Hume. Para o filósofo escocês, “um milagre é uma violação das leis da natureza, e como uma experiência constante e inalterável estabeleceu estas leis, a prova contra o milagre, devido a própria natureza do fato, é tão completa como qualquer argumento da natureza que se possa imaginar”
Esta passagem tem provocado muito desentendimento (duas boas referências acerca desta controvérsia filosófica e de sua interpretação moderna são Jordan Howard Sobel’s “On Evidence of Testimony for Miracles” e David Owen’s “Hume versus Priveon Miracles and Prior Probsbilities”, ambos publicados na Philosophical Quartely, 1987). Em particular, os argumentos contrários sempre focam na palavra prova, que se interpretada conforme o uso atual, parece implicar absoluta certeza. Mas é fácil de provar que Hume, de modo algum, usava essa palavra no sentido de certeza, assim como é claro no contexto de toda a sua escrita que a palavra prova era usada por filósofos daquela época para indicar o que hoje nós chamamos de probabilidade ou probabilidade de uma proposição. De fato, Hume explicitamente diz “em nosso raciocínio sobre os fatos, há os mais varáveis graus de certeza, desde o mais alto até o mais baixo grau de certeza moral”.
Então, vamos considerar o relato de um milagre (um OVNI ou um fantasma). Hume começa comparando duas experiências diferentes: o fato de que nós praticamente nunca observamos um milagre (um OVNI ou um fantasma) contra o relato de uma única observação deste fenômeno. Uma análise inicial nos fornece um bom motivo para sermos céticos em relação ao evento extraordinário em questão, pois a defesa da não ocorrência do milagre conta com o suporte da nossa experiência. Porém, não podemos deixar o relato do milagre pra lá, pois se fosse assim, nós não aceitaríamos nenhuma descoberta de nenhum fenômeno novo, pelo simples fato de não temos o observado antes.
Nesse ponto, Hume diferencia fenômenos extraordinários verdadeiros de eventos de rara ocorrência: “não é um milagre que um homem, aparentemente de boa saúde, morra subitamente, pois verifica-se que tal gênero de morte, embora mais incomum que qualquer outro, ocorre frequentemente. Mas é um milagre que um morto possa ressuscitar, porque
Reverend Bayes
isto nunca foi observado em nenhuma época e em nenhum país." Para os leitores acostumados com uma perspectiva Bayeseniana – uma das mais poderosas metodologias em teoria da probabilidade e epistemologia- essa sentença pode ser traduzida da maneira como se descreve adiante. A probabilidade prévia de um ataque cardíaco repentino é não negligenciável dependendo da frequência com que esse evento ocorre em uma população. Contrariamente, a probabilidade prévia da ocorrência de uma violação da natureza (ou um fenômeno paranormal) deve ser muito baixa, simplesmente porque nós seguradamente nunca

observamos tal evento, nem temos boas razões para acreditar que ele ocorreu (no entanto, novamente, a probabilidade nunca pode ser exatamente zero, se não, nós teríamos absoluta certeza da impossibilidade do evento, e nenhuma nova informação poderia mudar nossas crenças – a própria definição de uma mente fechada). 
Qual é a probabilidade de ser testemunha de um evento improvável ou milagroso? Hume diz que “uma máxima geral, digna da nossa atenção, é que não há testemunho suficiente para fundamentar um milagre, a menos que o testemunho seja tal que sua falsidade seria ainda mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer, e mesmo neste caso há mútua destruição de argumentos, e o argumento mais forte nos dá apenas uma segurança proporcional ao grau de força depois da dedução da força inferior”. Novamente, podemos
perceber influência Bayeseniana, apesar dos estudiosos estarem certos de que Hume não conheceu o trabalho de Reverend Bayes (apesar do fato de Bayes ter morrido em 1761 e seu ensaio ter sido publicado depois da sua morte, em 1763, quando Hume ainda estava vivo e bem de saúde). Agora nos estamos falando de probabilidades: a probabilidade que um testemunho esteja correto, assumindo que o evento ocorreu. De acordo com o teorema de Bayes, a probabilidade a posteriori se origina da multiplicação da função de verossimilhança com uma probabilidade a priori, como na equação:

P(M/T) = P(T/M) * P(M)

Isso significa que a probabilidade do testemunho de um milagre acontecer é proporcional à probabilidade prévia de sua ocorrência. Se padronizada essas quantidades, o sinal de igual pode ser interpretado como proporcional. Para simplificar:

uB= nE *pB (novas evidências são proporcionais ao produto da evidência antiga pela atual).

Então, a ideia de Hume pode ser remodelada da seguinte maneira: se as probabilidades a priori já são consideravelmente altas (como a de um homem morrer repentinamente de um ataque cardíaco), o testemunho precisa ser particularmente convincente (probabilidade moderada) para termos certeza se ocorreu (média a alta posteriori). Mas se as prioris são muito baixas (milagre) são necessárias evidências muito fortes para render uma posteriori elevada. Em outras palavras, é impossível haver evidências suficientes para que se acredite na ocorrência de um milagre (ou fenômenos paranormais)- somente com uma grande quantidade de evidências isso seria possível. Exatamente como pode ser extraordinariamente calculado pelo Teorema de Bayes.





*Massimo Pigliucci é professor de filosofia na Universidade Estadual de Nova Iorque, membro da Associação Americana para o Avanço da Ciência e autor do livro Nonsense on Stilts: How to Tell Science from Bunk. Seus ensaios podem ser encontrados no site http://rationallyspeaking.org/

 

**David Hume (Edimburgo, 7 de maio de 1711 – Edimburgo, 25 de agosto de 1776), filósofo escocês com pensamento baseado no ceticismo positivo, considerado o fundador da escola cética. 





quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ataques à laicidade e a Marcha Pelo Estado Laico e Liberdade Religiosa

A Constituição Federal diz que o Brasil é um Estado laico. Porém, não é isso que verificamos na prática. Não nos faltam exemplos de ameaças à laicidade ocorridos nos últimos anos. Para citar alguns, temos:
- PEC 99/11, proposta que inclui entidades religiosas de âmbito nacional entre aquelas que podem propor ação direta de inconstitucionalidade e declaração de constitucionalidade.
-  Estatuto do Nascituro, que é uma verdadeira afronta aos direitos das mulheres, pois além de tornar crime o aborto em caso de estupro, obriga a vítima a manter vínculo com o seu violentador. Ao mesmo tempo em que esse Estatuto torna toda mulher uma criminosa em potencial, já que até mesmo mulheres que sofreram aborto espontâneo deverão ser investigadas, ele torna o estuprador um pai de família. 
- Propostas de Projeto de Cura Gay, como se fosse possível tratar algo que não é doença.
Sem contar o financiamento público de eventos religiosos. Você sabia que a prefeitura de Curitiba deu R$40.000,00 para a realização da Marcha para Jesus? E que a visita do papa ao Brasil custou aos cofres públicos brasileiros cerca de R$118.000.000,00?
É importante deixar claro que Estado laico não é Estado ateu, e que essa não é uma luta contra as religiões ou contra determinado grupo religioso. Mas, sim, uma luta em defesa dos direitos humanos. Pelo direito da mulher de decidir sobre o próprio corpo e da comunidade LGBT de exercer livremente sua sexualidade (assim como os heterossexuais já fazem). É uma luta social, pois o dinheiro gasto financiando eventos religiosos poderia ser empregado em ações que beneficiassem uma parcela muito maior da população, por exemplo, em programas sociais, nas escolas e nos hospitais. É também uma luta pela liberdade religiosa. Sim, pela liberdade religiosa. O Estado laico não impõe nenhuma religião e nenhum conceito moral ao indivíduo, permitindo assim, que cada um seja livre para seguir a crença que escolheu. Ou até mesmo que não siga nenhuma crença.  


Em decorrência dos constantes ataques à laicidade a AES Curitiba e a Marcha Pelo Estado Laico, juntamente com outros grupos da cidade de Curitiba como a Marcha das Vadias e o Grupo Dignidade, está organizando para o dia 5 de outubro, a Marcha Pelo Estado Laico e Liberdade Religiosa. Fica então o convite para quem quiser participar de nossas reuniões e ajudar a construir a Marcha. Em breve traremos mais informações sobre as reuniões e sobre o evento. 

  

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Reflexões sobre o debate do ateísmo na imprensa brasileira

Você já parou para pensar porque a imprensa brasileira não leva o ateísmo para um debate sério ou colocou tal tema sob escrutínio?



SBT repórter
Globo repórter
Domingo espetacular
Fantástico
A Liga
CQC
Será mera coincidência... que estes ótimos programas de televisão nunca debateram nada relacionado ao ateísmo, estado laico e etc?  São programas semanais, e de maior audiência na Tv aberta. Com temas exaustivamente debatidos, como: Prostituição, mercado de trabalho, violência urbana, desemprego, homossexualismo e tantos outros.  Será que não sobrou um tempinho para uma menção ao ateísmo, e ao fato do Brasil ser “considerado” estado laico? Faça uma pesquisa, e verifique quais destes programas já exibiram algum episódio/reportagem sobre o ateísmo. Quando terminar, faça a mesma pesquisa, agora verificando quais destes programas já debateram a fé, a religiosidade, o papa. Porque esta diferença na abordagem destes temas distintos?
Quantos programas religiosos(diários) e quantos programas ateístas possuem as grades de programação de todas as emissoras(abertas e por assinatura). Quantas emissoras exclusivamente religiosas e quantas emissoras ateístas?
Porque um dia as pessoas lutaram pela democracia, pela liberdade de imprensa, se a mesma imprensa “escolhe” o que informar e como direcionar a informação? Adiantou defender a democracia em épocas de ditadura? Os principais jornais de Curitiba, por exemplo, têm o costume de informar aos seus leitores, sobre eventos relacionados ao ateísmo e relacionados a religiosidade? Informam de forma clara e imparcial em ambos os casos?
As manifestações relacionadas ao ateísmo/estado laico, não visam tomar o poder, entrar na política, criar uma bancada ateísta(ou exterminar a bancada evangélica ou alguma religião), criar cotas e leis para ateístas. Nada disso. A ideia também não é atacar e nem tomar o espaço de ninguém, e SIM ocupar o nosso PRÓPRIO espaço na sociedade defendendo nossas próprias ideias.
As pessoas têm o direito de pertencer a uma religião e acreditar em um deus. Isso é direito, não é um dever. As pessoas podem também, se assim quiserem, não se filar a nenhuma religião e não acreditar em um deus. Isso sim, é um estado laico em país democrático. Só que na prática, não é o que acontece no Brasil.
Porque é normal, em repartições públicas encontrarmos adereços religiosos? Quem fiscaliza? Quem adverte, quem pune? E se fosse o inverso, se em um hospital público houvesse um cartaz na sala de espera, fazendo referência ao Ateísmo? As pessoas aceitariam, como parecem aceitar adereços religiosos?   
E se fosse a imagem de Iemanjá?
Lembre-se que na vida, em algum momento, você está em maioria(por exemplo, pertencer a alguma religião, ser heterossexual). Mas, ao mesmo tempo, em algum momento da sua vida, você pode pertencer a alguma minoria(por exemplo: ateísmo, homossexualidade). São duas situações completamente distintas. Você enquanto estiver na maioria, terá um espaço e liberdade para expor seus pensamentos. Mas quando estiver em minoria, vai saber como é ter a sua opinião... as vezes ignorada, as vezes calada pela maioria.
Você pode, ao mesmo tempo pertencer a maioria em um determinado tema. E a minoria em outro determinado tema. Utilizando exemplos de simples entendimento, você pode ser heterossexual(pertencendo a esmagadora maioria da população mundial que são héteros  e ser ateu(pertencendo a esmagadora minoria da população mundial). O hétero não é discriminado, ignorado ou censurado. E o ateu? 



Texto enviado por Patrese Amaral. 

domingo, 2 de junho de 2013

As Mulheres na Ciência

Mulheres na biologia e na medicina


O texto de hoje sobre as mulheres na ciência, trás as descobertas realizadas por mulheres na área da medicina.


1-    Gerty R. Cori

Gerty Theresa Cori nasceu em 15 de agosto de 1896, na cidade de Praga. Estudou medicina na Universidade Germânica de Praga, onde obteve o seu título de doutorado em 1920, mesmo ano em que se casou com com Carl Cori. Dois anos depois, eles se mudaram para St. Louis, nos Estados Unidos. Porém, não foi fácil para Cori iniciar suas próprias pesquisas,já que as Universidades norte-americanas apresentavam resistência a entrada de mulheres como professoras ou pesquisadoras. A melhor oportunidade que surgiu foi para trabalhar como pesquisadora associada na Washington University em St. Louis.
Lá, Gerty iniciou pesquisas em colaboração com o seu marido. Os dois ganharam o Prêmio Nobel pela descoberta da via catalítica do glicogênio, o que melhorou a compreensão da diabetes.

2-    Barbara Mc Clintock

Barbara Mc Clintock é um dos nomes mais importantes da genética. Fez uma das descobertas mais espetaculares dessa área, conhecida como fenômeno da transposição genética.
Barbara nasceu em 1902, na cidade de Nova York. Seus pais, considerados liberais para a época, sempre incentivaram seus estudos, fato raro no começo do século XX, quando as únicas funções atribuídas às mulheres eram de esposa, mãe e dona de casa.
Em 1918 ela entrou para a Cornell University, onde começou a estudar a organização cromossomal no milho. Sua primeira contribuição foi a identificação dos 10 cromossomos presentes no milho. Anos mais tarde, ela descobriu a habilidade dos genes de mudarem de posição no cromossomo. Tal descoberta lhe rendeu o Prêmio Nobel de fisiologia e medicina, em 1983.
Devido ao seu carácter dinâmico, esses elementos móveis têm uma enorme influência na evolução e composição de genomas de plantas e animais. Podem se inserir dentro de genes do próprio organismo, podendo causar diversas doenças, bem como ser fonte de nova informação genética. Atualmente, essa descoberta tem sido usada como base para a terapia gênica, a qual procura inserir no DNA do paciente, mecanismos capazes de consertar ou regular determinados defeitos genéticos

3-    Rosalyn Sussman Yalow

Nasceu no dia 19 de julho de 1921, em Nova York. Obteve sua graduação em física no Hunter College, uma faculdade só para mulheres. Foi lá que descobriu o universo da Física, em especial da Física Nuclear.

Apesar de Rosalyn se dedicar intensamente ao estudo da física, não se esperava que ela atingisse algo mais que professora do Ensino Básico, pois naquela época, não eram admitidas professoras mulheres nas Universidades dos estados Unidos. Felizmente, após o término da sua graduação, deu aula como professora assistente na Universidade de Ilinois. Rosalyn conta que era a única mulher entre 400 homens.
Desenvolveu a técnica do Radioimunoensaio (RIE), um ensaio extremamente sensível para a determinação de hormônios peptídicos. Revolucionou a pesquisa de hormônios, por tornar possível a medição de quantidades muito pequenas de hormônios de forma rápida, quantitativa e específica. Por esse trabalho, Yalow foi a primeira física a receber um Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1977.


REFERÊNCIAS

Nelson e COX. Princípios de bioquímica de Lehninger. 5ª edição. Editora Artmed, 2011.
Giralt, m. Gerty Theresa Cori. Annals de Medicina, v. 93, p. 54-59, 2010.
Nanjundiah, v. Barbara McClintock and the Discovery of Jumping Genes. Resonance, 1996.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

As mulheres na ciência


Exatas não é só para homens: mais mulheres que se destacaram na física e na matemática 






O acesso à Universidade foi por muitos séculos negado às mulheres. E mesmo após a permissão para estudar em tais instituições, as mulheres sofreram muita discriminação, falta de apoio e de incentivo financeiro para realizarem suas pesquisas, apenas por causa do seu gênero. Um historiador dessa época escreveu que "entregar nossa universidades para a invasão das mulheres. . . é uma vergonhosa demonstração de fraqueza moral." Na Universidade de Erlangen, o Senado Acadêmico, em 1898, declarou que a admissão de mulheres estudantes é "derrubar toda a ordem acadêmica."
A situação das mulheres que optam pela área de exatas é mais complicada, visto que esse campo é até hoje visto como uma área masculina. A ciência exatas exige que a pessoa tenha um bom raciocínio lógico e abstrato, e a nossa sociedade ainda insiste em atribuir tais características exclusivamente ao gênero masculino.
Porém, tivemos mulheres que deixaram contribuições fundamentais para a física, matemática e a astronomia. Muitas delas, nós nunca ouvimos falar. Da fissão nuclear ao hidrogênio nas estrelas, hoje iremos falar sobre essas mulheres.

1-    Cecilia Payne-Gaposchkin

Cecília Payne-Gaposchkin foi uma astrônoma extraordinária. Nasceu em maio de 1900, em Wendover, Inglaterra, em uma família de intelectuais. Em 1919, um ano após o término da Primeira Guerra, ganhou uma bolsa para estudar botânica no Newnham College (Cambridge). porém, seu grande interesse por física e astronomia fez com que ela mudasse de área. Essa mudança foi decisiva para a vida acadêmica de Cecília.
Iniciou seus estudos de doutotado em Harvard justamente no ano em que o astrônomo Harlow Shapley inaugurou o curso de astronomia nesta Universidade. Cecília foi a primeira aluna de astronomia de Harvard. Com apenas 25 anos de idade, Payne-Gaposchkin concluiu a sua tese de doutorado intitulada “Atmosfera e estrelas, uma contribuição para o estudo da observação da altas temperaturas nas camadas revertidas de estrelas”. Sua tese foi descrita por Otto Struve, diretor do observatório de Yerkes como “a tese de doutorado mais brilhante já escrita em astronomia”. Nessa tese, Gaposchin descreve que os componentes mais abundantes das estrelas são o hidrogênio e o hélio.
Apesar de brilhante, Cecília foi obrigada a escrever em sua tese que os seus resultados poderiam estar errados. Quatro anos depois, o professor Russel (Princeton) publicou um artigo no qual descreveu que o sol é composto majoritariamente por hidrogênio.
Payne-Gaposchkin foi uma astrônoma extraordinária, porém seu grandioso trabalho foi desvalorizado e até mesmo esquecido. Foi contratada para trabalhar apenas como assistente, sendo que somente em 1956 foi nomeada como professora, tornando-se a primeira mulher a lecionar em Harvard.

A recompensa do jovem cientista é a emoção de ser a primeira pessoa na história do mundo a considerar algo ou a entender algo. Nada se pode comparar a essa experiência… a recompensa do cientista mais velho é o sentimento de transformar um vago esboço numa paisagem principal.
—Cecilia Payne-Gaposchkin




2-    Lise Meitner

Lise Meitner nasceu Viena em 1878. Durante a sua infância, cresceu em uma atmosfera intelectual estimulada pelos seus pais. Porém, quando terminou seus estudos primários com 14 anos não pode seguir adiante logo em seguida, já que naquela época em Viena, mulheres eram proibídas de frequentar a Universidade e as escolas secundárias. A partir de então, ela deveria se dedicar a uma atividade que fosse permitida as mulheres de sua época. Passou então a dar aulas de francês, algo que nunca foi do interesse profissional dela. Em um dos registros deixados por ela, Lise fala que apesar do seu interesse por física e matemática, ela não começou a estudar essas matérias cedo e que “olhando pra trás... pros tempos da minha juventude, percebe-se com espanto, que existiam alguns problemas na vida de jovens garotas que hoje em dia são inimagináveis”. Dentre esses problemas, Lise cita como sendo o principal, a falta de acesso aos estudos superiores.
Somente em 1899, com o apoio e incentivo de seus pais, Meitner começou a ter aulas das matérias ensinadas na escola secundária. Assim, dois anos mais tarde, pode frequentar as aulas na Universidade de Viena, quando já tinha 23 anos. Teve aulas com o físico Ludwig Boltzmann, considerado o fundador da mecânica estatística. Segundo Lise, Boltzmann a deu a ela “a visão da física como uma batalha pela verdade, uma visão que nunca perdi”. Obteve seu título de doutora em 1906, ao defender a tese intitulada “Condução de Calor em Corpos Heterogêneos”, na qual mostrou que a fórmula de Maxwell usada para a condução de eletrecidade em um sólido homogêneo também se aplica a condução do calor.
Em 1907, Meitner se mudou para Berlin para estudar na Universidade Max Planck. Lá conheceu o químico Otto Hahan, com quem veio a trabalhar em colaboração por 30 anos. Inciaram seus trabalhos examinado as reações alfa, beta, e gama. Porém,no início dessa colaboração, não eram permitidos mulheres no Instituto de Química, o que fez com que a cientista tivesse que trabalhar em um porão acessível ao Instituto de Química por uma entrada separada. Essa restrição acabou dois anos mais tarde, o que não significa que as coisas ficaram muito mais fáceis para Lise.
Apesar de sua parceria com Otto ter sido muito produtiva, enquanto ele tornava-se um membro destacado do Departamento de Química, ela ainda continuava a sombra. Somente em 1912 começa a receber uma pequena bolsa para financiar o seu trabalho. Essa bolsa foi solicitada por Max Planck, com o qual passou a trabalhar como assistente.
Em 1917, Maitner e Hahn começaram a trabalhar no Instituto Kaiser Wilhelm. Enquanto ele foi contratado para a direção de um departamento para investigação em radioatividade, Lise foi contratada apenas como convidada. Aqui já podemos observar claramente que mesmo Lise e Hahn encontrando-se no mesmo nível profissional (ambos eram doutores e já possuíam importantes artigos na área) o tratamento dispensado a eles era muito diferente. Somente anos mais tarde que ela passou para a posição de “Scientific associate”, uma posição mais alta que a anterior e melhor remunerada.
Em 1922, Lise passou a dar aulas no Departamento de Física da Universidade de Berlim. Antes de começar a dar aulas, teve que fazer uma apresentação Universitária inaugural público, como era a tradição desta instituição. Porém, por ser mulher, o fato virou notícia, tendo o jornal local publicado o tema: “o significado da radioatividade em física cosmética”. É lógico que o trabalho de Lise não tinha nada de “física cosmética” (o que quer que isso signifique).
Em decorrência da qualidade do seu trabalho recebeu a medalha de prata no Prêmio Leibniz Prize da Academia de Ciências de Berlim e o Lieben da Academia de Ciências de Viena. Seu prestígio serviu de inspiração para que mais meninas na época, se interessassem a seguir a carreira de física. Trabalhando juntos, Meitner e Hahn descobriram em 1918, o elemento protoactínio.Mas o trabalho mais importante de Lise Meitner foi a descoberta da fissão nuclear.
A física nuclear era um ramo que estava em expansão. No ano de 1934, o físico Enrico Fermi havia produzido isótopos radioativos bombardeando núcleos com nêutrons. Porém, como o resultado eram muitas espécies de núcleos, levantou-se a hipótese que algum desses isótopos seriam elementos transurânicos (número atômico maior que 92). Ao saber desses resultados, Meitner convenceu Hahn e seu assistente Fritz Strassmann a trabalharem juntos em um novo projeto cujo objetivo visava verificar se isso era possível.
Porém, a crise econômica e os rumos da Alemanha também serviriam como um obstáculo para o trabalho de Lise. Por ser de origem judia, apesar de ter se tornado protestante muitos anos antes, Lise havia sido proibida de dar aula em Berlim em 1933. Em 1938, quando a Áustria foi anexada a Alemanha, Lise perdeu a proteção da nacionalidade e se viu obrigada a se refugiar na Suécia, onde continuou seu trabalho no Instituto Manne Siegbahn em Estocolmo.
No Instituto Nanne Siegbahn, o auxílio financeiro que obtinha para realizar suas pesquisas eram muito baixos, e para piorar a situação, Lise trabalhava sem colaboração. Sua biógrafa conta que “sem ser convidada a se juntar ao grupo de Siegbahn, nem receber recursos para fazer sua própria pesquisa, tinham-lhe cedido apenas um espaço para montar um laboratório, mas ela não tinha colaboradores, equipamentos ou suporte técnico, nem mesmo seu próprio molho de chaves..”. Essa dificuldade foram em parte devido ao preconceito de Siegbahn contra mulheres cientistas.
Enquanto isso, Hahn, com a colaboração do químico Fritz Strassmann, continuou os estudos com os transurânicos. Ao realizarem mais alguns novos experimentos (algum deles realizados por indicação de Lise Meitner) com um produto do urânio que eles pensavam que fosse um isótopo do elemento rádio (Z = 88), verificaram que na verdade, se tratava de bário (Z = 56). Ao ler o trabalho escrito por Hahn, Meitner e Otto Frisch (sobrinho de Lise) interpretaram esse fenômeno, dando o nome de fissão nuclear. O trabalho foi publicado na revista Nature, onde estão transcritos alguns trechos:

..."A primeira vista, este resultado [de Hahn e Strassmann] parece difícil de entender. A formação de elementos bem abaixo do urânio fora considerada anteriormente, mas sempre foi rejeitada por razões físicas, na medida em que a evidência química não era totalmente clara. A [suposição] emissão, num curto período de tempo, de um grande número de partículas carregadas pode ser descartada pela pequena penetrabilidade da `barreira coulombiana', como sugerido pela teoria do decaimento alfa, de Gamow.
...Por conta de sua densidade saturada e forte energia de troca, espera-se que partículas em um núcleo pesado se movam de forma coletiva com alguma semelhança com o movimento de uma gota líquida. Se o movimento se tornar suficientemente violento, pela adição de energia, tal gota poderia se dividir em duas gotas menores.
...Parece, portanto, possível que o núcleo de urânio tenha pequena estabilidade de forma, e que possa, após capturar um nêutron, dividir-se em dois núcleos de tamanhos aproximadamente iguais (...) Esses dois núcleos se repelião e ganharão uma energia de cerca de 200 MeV, como calculado pelo raio e carga nucleares (...) Todo o processo de cisão pode ser descrito de forma essencialmente clássica, sem ter que considerar o `efeito túnel' da mecânica quântica, que seria extremamente pequeno, por conta das grandes massas envolvidas."

Os núcleos formados possuiam uma massa ligeiramente menor, mas a diferença das massas do composto original e do produto formado, quando aplicado na fórmula de Einsten, E= mc2, produziam uma energia muito grande. Uma grande descoberta científica, que infelizmente porém, foi usada na Segunda Guerra Mundial para a fabricação de bombas atômicas. Lise sabia da importância da descoberta da fissão nuclear, porém jamais imaginaria a que rumo esse conhecimento levaria.
Otto Hahn, integrado numa instituição cada vez mais nazista, é aplaudido pela descoberta da cisão nuclear. Mesmo tento sido Lise que interpretou tal fenômeno, Hahn recebeu sozinho o Prêmio Nobel de 1944 “pela sua descoberta da fissão de núcleos pesados. Enquanto isso, a situação de Lise Meitner pouco ou nada se alterou; Manne Siegbahn quase a ignora. Porém nem todos pensavam assim. Foram várias as universidades que lhe ofereceram doutoramentos honoríficos e academias de grande prestígio que a incluíram como seu membro.
Lise Mewitner retorna a Alemanha em 1949 e recebe a medalha Max Planck pela Sociedade Alemã de Física. Faleceu em 27 de outubro de 1968. Somente anos mais tarde, o papel de Lise Meitner na descoberta e interpretação da fissão nuclear foi reconhecido. Em 1982, o elemento de número atômico 109, obtido por Peter Armbruster e Gottfried Münzenberg, foi batizado de Meitnério, símbolo Mt, em sua honra.


3-    Emmy Noether



Emmy Noether, filha do matemático Max Noether, foi uma das figuras mais importantes da matemática no século passado. Nasceu na cidade de Erlangen, na Alemanha, há mais de cem anos atrás. No início do século XX, ainda não era permitida a presença de mulheres na Universidade de Erlangen. Apesar disso, Emmy conseguiu a licença para assistir as aulas nesta Universidade entre 1900 e 1902, o que ajudou com que ela passasse na Universidade de Göttingen, em 1903. No final do ano de 1904, ela retornou para Erlangen, onde obteve o seu doutoramento em matemática através da defesa de uma tese sobre a Teoria dos Invariantes.
Noether começou a trabalhar de maneira informal no Instituto de Matemática da Universidade de Erlangen, onde tinha como objeto de estudo a álgebra. Depois de um tempo, começou a dar aulas em Erlangen, porém, por seu mulher não podia receber por isso. Apesar de não possuir auxílio financeiro, em 1915 ela publica os resultados de sua pesquisa. Com os resultados dessa publicação, ela revolucionou as teorias sobre anéis e corpos. Em física, o  teorema de Noether explica a conexão fundamental entre a  simetria na física e as leis de conservação.
Seu trabalho começou a ficar reconhecido, até que em 1915 ela se muda novamente para Göttingen para auxiliar os matemáticos David Hilbert and Felix Klein em problemas relacionados sobre a Teoria da Relatividade de Einsten. O próprio Einstein elogiou seu pensamento matemático penetrante em sua carta a Hilbert em 1918, Nessa carta, o famoso físico escreve: “Ontem recebi da senhorita Noether um artigo muito interessante sobre formas invariantes. . . ela certamente sabe o que está fazendo.” A partir da década de 20 do século passado, Noether começa a segunda etapa do seu trabalho, os quais foram fundamentais na área de álgebra abstrata.
Emmy Noether foi uma matemática abstrata, original e profunda e suas contribuições foram de extrema importância para a álgebra. A abordagem desenvolvida por Noether e seus alunos ficou conhecida como a Escola de Noether. Infelizmente, Emmy morreu cedo, no ano de 1935, com apenas 53 anos de idade, devido complicações de uma cirúrgia para a retirada de um tumor.

4-    Maria Goeppert Mayer

Maria Goeppert foi uma física estadunidense nascida em 26 de junho de 1906 na Alemanha. Era filha única de Friederich Goeppert, pediatra e professor na Universidade de Göttingen. Desde criança, já assumia-se que Maria iria frequentar a Universidade quando mais velha, algo raro e incomum de se esperar das mulheres de sua época. Seu pai não queria que ela se tornasse uma dona de casa.
Aos 18 anos começou a estudar matemática na Universidade de Göttingen. Foi nesse período que Goeppert teve contato com uma área nova na física que estava em ascensão naquele período: a mecânica quântica. Em 1930 obteve o seu título de doutorado.
     Foi também no ano de 1930 que Maria casou com Joseph Mayer, também estudante na época, e então passou a assinar como Goeppert-Mayer. Eles se mudam para os Estados Unidos e Joseph começa a estudar na Universidade de Baltimore. Porém Maria não consegue um emprego nessa instituição com a desculpa que duas pessoas da mesma família trabalhando na mesma Universidade seria nepotismo. Então, Maria Goeppert-Mayer começou a trabalhar como assistente na Universidade de Baltimore. Somente em 1960 ela finalmente conseguiu uma posição no departamento de física da Universidade da Califórnia em São Diego, onde lecionava.
Goeppert-Mayer criou a primeira teoria verdadeiramente quântica para a estrutura nuclear. Foi ela quem introduziu o conceito de camadas nucleares, o qual, além de ter sido fundamental para o estudo do átomo, permitiu também entender a rotação intrínseca e propriedades magnéticas nos núcleos, conhecimento esse que é a base da ressonância magnética usada amplamente na medicina.
Maria Goeppert-Mayer recebeu o prêmio Nobel de física em 1963 junto com seu colaborador J. Hans Jensen, tornando-se a segunda mulher a receber tal honraria. A primeira foi Marie Curie.



REFERÊNCIAS
1-    Banerjee, b. Maria Goeppert Mayer. Ressonance, 2007.
2-    Emmy Noether (1882–1935) – Disponível em: http://www.ias.ac.in/womeninscience/Noether.pdf
4-    Gonçalves-Maia, R. Lise Meitner: A Intérprete da Cisão Nuclear. Rev. Virtual Quim., v.4, n.2, p. 173-192, 2012.
5-    Gingerich, o. Cecília Payne-Gaposchkin: astronomer and .astrophysycist, 1900-1980. Disponível em: http://www.harvardsquarelibrary.org/unitarians/payne2.html
6-    Horn, d. ESSAYS ON SCIENCE AND SOCIETY The Shoulders of Giants. Science, v. 280, n. 5368, p. 1354-1355, 1998.
7-    Moeckly, s.r. The Life and Work of Maria Goeppert-Mayer. Mulheres na Física: Lise Meitner.Carta ao editor. Rev. Bras. de Ensino de Física, v. 27, n. 4, p. 491-493, 2005.
8-    Weintraub, b. Lise Meitner (1878-1968): Protactinium, Fission, and Meitnerium. Disponível em: http://www.chemistry.org.il/booklet/21/pdf/bob_weintraub.pdf